Diário da Nat: Minha querida amiga abusiva



Não era como se eu fosse carente de amigos. Sempre fui rodeada de pessoas bacanas, inteligentes, sensatas. Mas você era diferente. Mesmo sabendo que sou especial pra muitas pessoas, você me fazia ter uma certeza diferente disso. E afirmava, reafirmava, repetia, lembrava. Todos os dias você dizia o quão bom era ter minha amizade. E eu, querida amiga abusiva, fui entrando na onda. Comecei a comparar você a outras amigas e pensava que toda minha vida eu vivi rodeada de pessoas que nem gostam tanto assim de mim. Pelo menos nada que se compare ao tanto que você gostava e me valorizava. 
Você me cegou. Você me dava uma estrela e roubava uma constelação inteira. Você me fazia dependente, e sumia. Parece estranho, bem estranho por isso em palavras. Na verdade é decepcionante, você fez eu me perder de mim mesma e me encontrar em você. 

Sabe amiga abusiva, as pessoas acreditam que isso acontece apenas nos relacionamentos amorosos. Mas não, eu fui submissa a nossa amizade e hoje me entristece ver o tempo que perdi. Dia desses, estava relendo nossas conversas no chat do facebook, lá é onde mora os últimos resquícios do que eu pensei ser uma amizade sincera. Ler as palavras que você me dizia me deu uma tristeza profunda, não por não ouvi-las mais de você, mas por um dia acreditar que eu precisava delas. E também por pena de existir uma pessoa que banaliza tanto o valor dos sentimentos dessa forma. Apaguei as mensagens do inbox, uma a uma e hoje não tem mais nada. Não tem foto, não tem mensagem no watts, não restou nada, apenas arrependimento.






Me arrependo, querida amiga abusiva, de tudo que deixei passar pra conquistar sua atenção. Me arrependo de ter deixado a situação chegar a tal ponto. Me arrependo de quem eu perdi por não saber dosar o tempo que eu dedicava a você e o tempo que eu dedicava a mim mesma. Me arrependo de te ligar, o telefone tocar até cair e eu pensar: "Ela deve estar ocupada demais". Mas a ligação ia direto pra caixa postal e eu tinha certeza que você estava desligando, mas dentro de mim existia um auto-consolo e eu me conformava: "Daqui a pouco ela retorna". Mas não acontecia. Me arrependo das mensagens que mandei, incansavelmente, da decepção que eu sentia quando eu não recebia sua resposta e de como você me fazia de boba depois, com uma desculpa esfarrapada e a frase: "Você sabe que é minha melhor e única amiga, né?". Me arrependo de ter ido na sua casa, em um dia de chuva, batido no portão e você não ter atendido.

Hoje, eu entendo o valor da reciprocidade. Entendo que um sentimento vai e deve voltar. Que uma amizade saudável, é a que soma, não a que some. É a que avança, não a que puxa pra trás. É a que trás risos, não choro, não dependência, não frustração. Eu aprendi que não precisava de você. E você sabia disso. Sabia que eu não precisava dessa sua amizade crua e de uma pessoa superficial e egoísta como você na minha vida. Você sabia disso, mas tentou me deixar que nem você, porque entende que não tem o coração como o meu e sabe que jamais terá. 

Mas, apesar de ter sido boba, cega, surda e muda perto de você, eu ainda era eu. Minha essência não foi alterada em nenhum momento, e quando eu quis dar um mergulho na profundidade do meu ser, eu vi que você não estava lá. Eu te procurei e não achei, porque você é rasa, e não sabe o que é ser profundo. Então eu tive um lapso de clareza e sanidade e vi meus antigos amigos, quase estranhos porque eu os larguei por sua causa. Eu vi os meus conflitos, quase perdidos porque você dizia que não eram importantes. Eu me vi no espelho e não me enxerguei. 


Me busquei, foi difícil, mas te venci e me encontrei, querida amiga abusiva. Me desculpe, mas para me achar eu tive que esquecer você. 

E foi assim, sem dizer, sem aviso, sem alarde que eu sumi. Mas, o sentimento era tão forte que eu ainda fiquei pensando: "Uma hora volta, ela vai sentir minha falta, ver que estava errada, e vamos retomar nossa amizade de um ponto diferente, será saudável, será recíproco". Não aconteceu. Foi difícil demais perceber que eu vivi anos de uma amizade onde só eu era amiga. Mas foi um alívio inexplicável o que eu senti quando percebi que você tinha ido.

Mas, eu te agradeço.
Obrigada porque hoje eu estou mais esperta. Mais seleta. Mais tranquila. Obrigada por que eu sei que não preciso ser rasa, que eu posso mergulhar, porque quem ama vai ir ao fundo comigo. E jurei pra mim mesma que não vou me perder de novo, porque graças a você, eu sei que devo me amar antes de qualquer um. Obrigada porque você me mostrou o quão frio o ser humano pode ser, o quão injusto, o quão persuasivo. Obrigada porque você me fez ver que não se perde quem sabe amar, mas sim quem não sabe receber o amor, a amizade, o carinho. Obrigada por não ter ficado. Obrigada por estar longe, mesmo morando tão perto de mim.


Cara amiga abusiva, você me fez uma mulher mais forte. Uma pena foi que eu não consegui nem ao menos te tornar uma mulher. Mas não guardo mágoa, nem rancor ou tristeza de você. Apenas indiferença. Te quero longe pra me ter por perto.


Tchau pra você.

Hoje coloco duas letrinhas na frente: e.x.

Ex-amiga abusiva.

2 comentários:

  1. Olá lindona.
    Amei demais seu texto, você desenvolveu muito bem.
    Beijocas.

    meumundosecreto

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  2. Caramba Nat, que texto forte sua maturidade em tirar uma coisa boa depois disso é maravilhosa. Fico feliz que tenha se encontrado.

    Me inscrevi no teu blog, passa lá no meu a ta no inicio mas juro que a proposta é bem bacana, bjos

    http://blog-propositalmente.blogspot.com/

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